1.12.04

 

O Grito de Alarme e os seus Ecos

O expectável aconteceu. O Governo de Santana Lopes, fraco, desequilibrado e mal dirigido, viu-se desautorizado pelo Presidente da República, que decidiu dissolver o Parlamento e marcar eleições legislativas antecipadas. Até lá, o Governo manter-se-á em funções, com algumas limitações constitucionais.

Esperemos que saiba honrar o resto do caminho, já que falhou a sua grande oportunidade de ganhar a confiança do povo e das Instituições da Nação.

A decisão do PR tem de aceitar-se como normal, ainda que lhe sintamos sensibilidade diferente na avaliação do desempenho dos executivos. Entre as trapalhadas de Guterres e as de Santana, o PR tem menos paciência para as últimas. Mas, compreende-se, porque nunca disfarçou a sua inclinação socialista, nem sequer usou a formalidade de Soares, velha raposa política, que devolveu o seu cartão de militante, logo que entrou em Belém.

Só os incautos acreditaram na apregoada pureza da atitude publicitada com fragor. No seu segundo mandato, Soares viria a exibir, sem rebuço, o seu antes reprimido desejo, como depois plenamente se percebeu, no combate que moveu e na ulterior derrota que infligiu a Cavaco Silva e ao PSD, em grande parte devida à forte cumplicidade que Soares estabeleceu com toda a oposição política em exercício, animosamente unidos no mesmo propósito. De resto, ele próprio já o confessou publicamente, não tivessem alguns ingénuos desentendido a manobra.

O PSD, falho de percepção e temeroso de luta política, até tinha aceitado apoiar a reeleição de Soares, que, assim, bem remuneradamente lha pagaria. Houve aqui nítido défice de percepção política da parte do PSD, então demasiado entusiasmado com as auto-estradas e com os fundos da União Europeia.

Soares e os socialistas agem sempre com maior sentido político. O PSD e Cavaco Silva quase pretenderam expulsar a Política, apresentando-se insistentemente apenas como gestores assépticos dos negócios do Estado, entidade que chegavam a ver com indesfarçável enfado.

Por tanto menosprezarem o fenómeno político e se terem convencido de que bastaria a sua reputação de gestores para granjear a aceitação dos eleitores, acharam-se no final desamparados e metidos em intrincada discussão pela sucessão do legado político de Cavaco Silva.

Passados cerca de 10 anos desde a sua saída do Governo, depois de uma prolongada indefinição, conhecida pelo tabu do seu empenho político futuro, veio Cavaco Silva finalmente a terreiro com um artigo de intenção política no Expresso, lançando o seu grito de alarme para a fraca qualidade dos agentes políticos actuais.

Diga-se que foi positivo que tivesse lançado esse grito de alarme, porque, finalmente, alguém com grande notoriedade e credibilidade, da área do PSD, apareceu a dizer o que muitos outros, ao longo dos últimos anos, vinham dizendo, sem que ninguém os ouvisse.

Mas, se foi positiva a sua intervenção, há que acrescentar que ela peca por tardia e não diz tudo o que é preciso.

A situação presente é demasiado calamitosa e não se recompõe, com pequenas mexidas ou correcções. Sem uma grande reformulação do ideário e do pessoal político do PSD nada de significativo mudará.

Ter-se-ia de começar pela redefinição do seu ideário político. Se de facto se acha que a Social-Democracia deixou de ser a motivação política do PSD, então há que declará-lo sem ambiguidade ; se se entende que o nome do partido só se mantém por razões históricas, sem repercussão na doutrina actual, é melhor que isso seja afirmado ; se já se entende haver percebido a nova definição doutrinária, nas transformações sociais e políticas operadas nas últimas décadas, deve-se do mesmo modo proclamá-lo e difundi-lo, para que não subsistam mal-entendidos.

A actual confusão gera comportamentos erróneos e ilude muitos bem intencionados.

Modestamente, já aqui no Alma Lusíada e no Veritas Filia Temporis, de Pacheco Pereira, abordei este tema, como contributo para um debate necessário, que me parecia urgente que se desencadeasse, não havendo, todavia, logrado nenhum êxito, nem sequer resposta ou réplica, concordante ou discordante.Dir-se-ia haver, em certos círculos, horror à discussão política ou então dar-se-á o caso de estarem a reservar-se para elevados debates com altas figuras da filosofia política mundial.

Acresce que me custa ver tanta gente, que se diz interessada na vida política, sem se importar com o seu suporte doutrinário, ainda que de mero referencial se tratasse, para orientação e esclarecimento da sua intervenção política : individual e colectiva.

A luta política consequente exige formação teórica, doutrina, firmeza de carácter, clareza de objectivos, metas de realização e empenho dos seus agentes. Sem isto, não há verdadeira actuação política, mas apenas arregimentação de hostes de oportunistas que seguem, ora um ora outro líder, que, no momento, lhes pareça mais capaz de as conduzir às cobiçadas regalias do poder.

Lamento dizer, mas não vi que Cavaco Silva alguma vez nos seus mandatos tivessse mostrado preocupação por estes assuntos. Pelo contrário, muitas vezes, desdenhou a dimensão política, sobrevalorizando os aspectos económicos e financeiros no exercício da governação, assim como não deu suficiente atenção a aspectos fundamentais do robustecimento do tecido da Nação.

A Educação e a Cultura, já no seu tempo, andavam muito subalternizadas ; a Agricultura, logo se desmantelou ; as Pescas, idem, num afã de aprovação de Bruxelas que levava a que ficássemos progressivamente mais enfraquecidos de infra-estruturas básicas, suporte da subsistência de qualquer país que preze a sua autonomia.

Foi também pela mão de Cavaco Silva que muito falso valor veio para a Política, de onde depois saíram para douradas carreiras de gestão nas Empresas Públicas e privadas, nalguns casos também com pouca transparência, dada a promiscuidade que se gerava, ao transitarem para sectores antes tutelados nos cargos que desempenhavam.

A maioria desta gente rapidamente se desinteressou da Política, servindo estratégias partidárias diversas, consoante as vitórias eleitorais, sem qualquer empenho ou contributo na vida da res publica.

Se recordo estes aspectos, não é porque menospreze a acção de Cavaco Silva, em quem repetidamente votei.

Reconheço todos os seus méritos de pessoa séria, competente, muito conhecedora na esfera económico-financeira, dotado de uma autoridade natural, que o privilegia para o exercício do poder, sem dúvida muito acima da média dos outros intervenientes do espectro partidário. Mas, naturalmente, com limitações, como todos os mortais e, por isso, carecido de boa colaboração, vertente em que amiúde falhou, quer na escolha, quer na cobertura que deu a algumas figuras inteiramente desmerecedoras dela.

Por isso mesmo, considero que a sua intervenção pública, em matéria agora claramente política, ainda que invocando uma lei da Economia, vem algo atrasada e, se corresponde a um firme propósito de novo empenhamento político pessoal da sua parte, ela tem de ser complementada com um entendimento com a parte sã da família social-democrática desavinda, na base de princípios e objectivos claros, para retirar o País da situação degradada e depressiva em que há anos mergulhou e de que tarda em conseguir sair.

A leviandade, a impreparação e a incompetência com que o PSD agiu, nos últimos nove anos, na oposição como no poder, em sectores importantíssimos da vida do País, como sejam a Energia (sem orientação), a Indústria (a que resta), a Educação (que não há),a Cultura (sem chama), a Agricultura (a que sobrevive), as Pescas (em desaparecimento), a Saúde(caótica) e a Justiça(desacreditada), sem pretender hierarquizar, exige que se faça um amplo exame dos sectores, prévio a qualquer actuação futura, se se pretende visar uma melhoria sustentada.

É preciso efectuar um diagnóstico rigoroso da situação do País, sector por sector, e, a partir dele, traçar um programa eficaz de actuação, não cometendo os erros anteriores, nem voltando a apostar em figuras que decepcionaram ou se desonraram, porque ou não revelaram a competência esperada ou apenas se serviram dos cargos ocupados, no Estado e nas Empresas, para seu benefício exclusivo, esquecendo tudo o que estivesse para além do seu conforto pessoal.

Muito há, pois, a fazer para reabilitar e redignificar Portugal, que atravessa hoje, podemos dizê-lo,sem receio,uma das fases mais deprimentes da sua História recente. Depois do 25 de Abril de 1974, só tem comparação com a do fim do Bloco Central,talvez para pior.

Ou estamos conscientes da gravidade da situação e nos dispomos a agir a preceito ou não valerá a pena lançar gritos de alarme.



Res, non verba ( Acção e não Palavras )

Verba docent, exempla trahunt ( As palavras ensinam, os exemplos arrastam )


AV_Lisboa, 1 de Dezembro de 2004, Feriado consagrado à memória do dia da Restauração da Independência de Portugal, em 1640.

Comments:
Excelente Post !

Sem retirar um grama da responsabilidade na imagem negativa que PSL tem na vida curta deste governo finado, penso que a grande fatia de responsabilidade cabe ao núcleo "duro" do PSD (incluindo Durão Barroso), primeiro quando "escolhem" PSL para o lugar, segundo, quando lhe retiram totalmente o apoio.

PSD's como Marcelo, Pacheco, Cavaco, Marques Mendes... não tomam posições corajosas quando devem e no lugar apropriado, reservando-se para papéis jornalísticos e de comentadores oposicionistas, à posteriori.
Mal por mal prefiro a frontalidade de Alberto João !
 
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